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Foto: Daniel Dan | Pixabay

 

O Relatório Global de 2021 produzido por agências da Organização das Nações Unidas (ONU), responsável por avaliar o impacto global da pandemia, aponta que, em 2020, mais de 2,3 bilhões de pessoas (30% da população mundial) não tiveram acesso à alimentação saudável, sendo este um dos fatores mais importantes para a prevenção da obesidade infantil e doenças associadas.

Já o Relatório Luz 2021, sobre a Agenda 2030, realizado por 57 organizações não governamentais, entidades e fóruns da sociedade civil, aponta que o Brasil regrediu no cumprimento de políticas públicas de áreas como pobreza, segurança alimentar, saúde, educação e meio ambiente.

O documento revela que 9% da população brasileira passa fome, outros 11,5% sofrem com insegurança alimentar moderada e 34,7% insegurança leve. Deste percentual, apenas 44,8% dos brasileiros se alimentam bem.

A diretora-presidente do Instituto Opy de Saúde, Flavia Antunes Michaud, chama atenção para a forma de se produzir, acessar e consumir alimentos no país. “A pandemia de Covid-19 expôs – e continua expondo – a deficiência em nossos sistemas alimentares, ameaçando vidas e a saúde de gerações”, explica Flavia.

 

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Foto: Journal Turk | iStock by Getty Images

 

Atrelado a escassez de alimentos, a má alimentação está presente de forma intensa, com crianças pagando um alto preço. Dados da ONU de 2020 estimam que mais de 149 milhões de menores de cinco anos sofreram de atraso de crescimento ou possuíam uma estatura muito baixa para sua idade; mais de 45 milhões – debilitadas ou muito magras para sua altura; e quase 39 milhões – acima do peso. Três bilhões de adultos e crianças não conseguem acessar comidas saudáveis, em grande parte devido ao aumento da pobreza e a inabilidade de adquirir verduras, carne e laticínios, itens cujos preços seguem em ascensão.

“É um desafio duplo: cada vez mais gente passa fome e cada vez mais pessoas, especialmente os mais vulneráveis, comem as chamadas calorias vazias, que não possuem nenhum valor nutricional e são altas em gordura e açúcares. Isso aumenta a população de mal alimentados, de pessoas vivendo com obesidade e com sobrepeso. Vemos um sistema de saúde estrangulado por esses fatores”, destaca Flavia.

Agroindústria e monocultura são falsas soluções, afirmam especialistas

Técnicos do Fórum Econômico de Davos e da ONU afirmaram, na Cúpula Mundial dos Sistemas Alimentares, que o sistema alimentar do mundo está “quebrado”. Para eles, a capacidade do planeta em render frutos que alimentem toda a população humana está ameaçada; e apenas a agroindústria poderia resolver a crise.

 

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Foto: Facebook | ONG FASE

 

Mas será que as monoculturas são, de fato, o “celeiro do mundo”? Hoje, 70% da população global serve suas refeições com frutos da agricultura familiar e camponesa; e apenas 30% da população mundial é alimentada pela cadeia alimentar industrial.

A ONG FASE reuniu 9 especialistas para fazer o dossiê “Sistemas Alimentares: fome, corporações e alternativa”, onde são apontadas soluções alternativas à agroindústria. São profissionais de diferentes áreas; de nutrição e engenharia agrônoma até economia e antropologia.

O documento foi disponibilizado no sábado, 16 de outubro, Dia Mundial de Combate à Fome, no site sistemasalimentares.fase.org.br reunindo 9 artigos acompanhados de vídeos e entrevistas.

 

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“Sistemas Alimentares: fome, corporações e alternativa” – Para acessar o conteúdo completo, clique aqui. Imagem: Reprodução | ONG FASE

 

Ele é dividido em quatro temas: “Fome é política”; “Políticas de abastecimento e compras públicas”; “Soberania Alimentar no campo-cidade”; e “Comer é um ato político”. O dossiê busca aprofundar o debate sobre as cadeias de produção de alimentos e as políticas de abastecimento, numa tentativa de explicar como como estes, entre muitos aspectos, influenciam na soberania e segurança alimentar da nação.

O que o dossiê mostra que o direito à alimentação é um direito humano e deve ser feito com acesso ao que popularmente se conhece como “comida de verdade”. Ou seja, alimentos de origem natural, produzidos de forma sustentável.

 

“Comida de mentira”

 

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Imagem: Pixabay

“AS RECEITAS TECNOLÓGICAS QUE SE APRESENTAM NÃO LEVAM EM CONTA OS FATORES ECOLÓGICOS, SOCIOECONÔMICOS, CULTURAIS E OS DIREITOS HUMANOS DE UM MUNDO ONDE CRESCE A FOME, QUE JÁ ATINGE CERCA DE 800 MILHÕES DE PESSOAS, ONDE CRESCE A OBESIDADE E DESNUTRIÇÃO, E ONDE ACENTUAM-SE AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS, CARACTERIZANDO UM CENÁRIO QUE VEM SENDO DENOMINADO DE SINDEMIA GLOBAL.”

Maria Emília Lisboa Pacheco, antropóloga

 

Maria Emília Lisboa Pacheco é antropóloga, representante do Fórum Brasileiro de Soberania, Segurança Alimentar e Nutricional (FBSSAN) e assessora do Programa Direito à Segurança Alimentar, Agroecologia e Economia Solidária da FASE. Segundo ela, existe uma artificialização dos alimentos, fazendo com que eles se tornem produtos ultraprocessados que, não seriam comidas, mas sim fórmulas industriais.

“Esses produtos não são propriamente alimentos, mas, sim, formulações industriais feitas inteiramente ou majoritariamente de substâncias extraídas de alimentos (óleos, gorduras, açúcar, amido, proteínas), derivados de constituintes de alimentos (gorduras hidrogenadas, amido modificado) ou sintetizadas em laboratórios com base em matérias orgânica como petróleo  e carvão (corantes,  aromatizantes realçadores de sabor e vários tipos de ativos)”, explica Maria Amília.

“BUSCAM DOTAR OS PRODUTOS DE PROPRIEDADES SENSORIAIS ATRAENTES, COM IMPACTOS NA SAÚDE, NA CULTURA ALIMENTAR E NA VIDA SOCIAL, COMO NOS ENSINA O GUIA ALIMENTAR PARA A POPULAÇÃO BRASILEIRA, TANTAS VEZES CONTESTADO PELAS EMPRESAS”.

Maria Emília Lisboa Pacheco, antropóloga

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Foto: iStock

Política da fome

 

Já o ex-presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA), Francisco Menezes, atual assessor de políticas da ActionAid, afirma que a fome no Brasil é um problema crônico e político. Ele conta que a situação de insegurança alimentar é agravada conforme avançamos na análise interseccional de gênero, raça e territorial. Estão em maior risco os lares chefiados por mulheres negras ou pardas e de baixa escolaridade. O acesso à alimentação de qualidade também é reduzido entre essas famílias.

Mesmo quando o Brasil saiu do Mapa da Fome, em 2014, mantiveram-se situações de fome entre indígenas, quilombolas e povos tradicionais. Segundo Menezes, faltou ao Brasil a democratização do acesso à terra e uma política nacional de abastecimento, cuja ausência provoca reflexo direto no preço dos alimentos atingindo desproporcionalmente a população mais pobre.

“SE O EMPOBRECIMENTO SE ACELEROU COM A PANDEMIA, OUTRO FATOR QUE INTENSIFICOU A INSEGURANÇA ALIMENTAR E A FOME FOI A ELEVAÇÃO DOS PREÇOS DE ALIMENTOS BÁSICOS, IMPACTANDO JUSTAMENTE AQUELES MAIS POBRES, EM QUE A AQUISIÇÃO DE ALIMENTOS PESA CONSIDERAVELMENTE.”

Francisco Menezes, atual assessor de políticas da ActionAid

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Foto: Divulgação | Bom Prato

“Em 2020, o componente da alimentação na inflação foi três vezes maior do que o índice médio, por conta da elevação dos preços do arroz, feijão, óleos vegetais, carnes e até ovos, entre outros. Resultado da ausência de uma política de abastecimento voltada para a maior parte da população penalizando justamente aqueles mais vulneráveis”, afirma Francisco Menezes.

Soluções reais

Há, no entanto, outras estratégias de combate à fome para além da monocultura industrial. Os sistemas alimentares territoriais são construídos com técnicas baseadas nas experiências dos povos tradicionais e de agricultores familiares. Desta forma, se busca uma cadeia de produção mais justa e socialmente responsável, com foco no papel das mulheres e em tecnologias sociais. Quem produz alimentos diversificados protege a biodiversidade, a saúde e a natureza.

No centro destes princípios estão o Direito Humano à Alimentação e Nutrição Adequadas, a soberania alimentar, a agroecologia e os valores de justiça social e alimentar e da democracia.

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Foto: ONG FASE

Saiba mais: O que são sistemas alimentares?

Sistemas alimentares são o conjunto dos processos produtivos relacionados à alimentação. É todo o caminho que a comida percorre, desde a semeadura até a hora da refeição. Quando esses sistemas sofrem desequilíbrios, como a oferta massiva de alimentos superprocessados, as pessoas passam a se alimentar de forma não saudável. Consequentemente, a saúde da população é afetada, e isso acaba se tornando um problema global.

Saiba mais: O que é agroecologia?

Agroecologia é uma forma de agricultura sustentável que agrega conhecimentos formais, vindos das faculdades de agronomia, com os conhecimentos ancestrais de agricultores familiares e comunidades tradicionais. Seus métodos buscam superar os danos causados pela prática da monocultura, dos transgênicos, dos fertilizantes industriais e dos agrotóxicos.

A agroecologia tem uma perspectiva emancipatória.  Cada vez mais, ela se situa no campo do debate e das práticas com o objetivo da transformação dos sistemas alimentares em conexão com a natureza. Combinada com a perspectiva da soberania alimentar apresenta-se como alternativa hoje e para o futuro.

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Foto: Escola de Agroecologia

Na sua dimensão social, defende as relações de igualdade, reconhecendo que as mulheres historicamente são as guardiãs da biodiversidade e dos bens comuns.

Posiciona-se contra o racismo e reconhece que uma sociedade pluriétnica, com diferentes formas de apropriação e uso da terra e dos bens da natureza, é um componente fundamental da democracia e do enfrentamento dos grandes desafios na relação entre sociedade e natureza.

Fonte: Ciclo Vivo

 

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