Evangélicas e católicas feministas utilizam a própria fé para defender o direito ao aborto

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Evangélicas e católicas feministas utilizam a própria fé para defender o direito ao aborto

“Uma mulher pode tomar a decisão pela interrupção de uma gravidez recorrendo à sua fé, e não apesar de sua fé”,

diz fundadora do Católicas pelo Direito de Decidir.

“A história é assim: um anjo chega até uma jovem, na Palestina, e diz que ela havia sido escolhida para ser a mãe do filho de Deus. E o texto [bíblico] continua, afirmando que ela disse ‘sim’. Ora, você só aceita alguma coisa que lhe foi proposta. A gente pode dizer, de fato, que Maria foi consultada se queria ser a mãe de Jesus. Ela aceitou.”

A interpretação da doutora em sociologia e professora de Ciências da Religião na PUC (Pontifícia Universidade Católica) em São Paulo Maria José Rosado Nunes pode ser entendida por alguns como heresia e até pecado. Mas esta ideia condensa grande parte do pensamento de religiosas como ela que, há pelo menos 25 anos, têm utilizado a própria fé para defender o direito ao aborto no País.

″Todas as ‘Marias’ têm que ser consultadas se querem ser mães e se têm esse projeto para a suas vidas. E por isso eu digo: isso supõe que elas devem ter a liberdade de poder decidir o que querem fazer com o seu corpo.”

Maria José, a Zeca, não só abdicou da vida de freira, como ajudou a fundar o mais antigo grupo de católicas que prega pelos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres no Brasil, o Católicas Pelo Direito de Decidir (CDD). Criado em 1995, o coletivo hoje tem representantes em todos os estados brasileiros e se coloca como contraponto à postura de religiosos que defendem a criminalização e se denominam pró-vida.

O grupo atua em duas frentes: educativa, produzindo materiais didáticos sobre direitos humanos e religião; e política, organizando debates, marchas pelos direitos das mulheres, além de visitas ao Congresso Nacional para dialogar com autoridades. A defesa de um Estado laico e de direitos LGBT também está na pauta da organização.

Maria José, a Zeca (foto acima) não só abdicou da vida de freira, como ajudou a fundar o mais antigo grupo de católicas que prega pelos direitos sexuais e reprodutivo das mulheres no Brasil.

A demora em garantir o aborto legal à menina capixaba de 10 anos que engravidou após ter sido estuprada durante 4 anos pelo tio, assim como a postura da ministra Damares Alves – que é ex-pastora e ligada a congregações evangélicas – sobre o caso e a recém portaria do Ministério da Saúde que altera diretrizes sobre o procedimento no País geraram debate sobre a questão.

Para Maria José, este é um momento contraditório. Ao mesmo tempo em que a discussão sobre um direito negado às mulheres se tornou ampla na sociedade, há a postura de um governo que, segundo ela, apresenta evidências de que trabalha para limitar o acesso, em especial, ao aborto já previsto em lei.

”Uma sociedade democrática é uma sociedade que discute e é capaz de acolher as diferentes posições e estabelecer um consenso”, diz. “Portarias como aquelas têm elementos inconstitucionais. O momento necessita de um posicionamento forte, para que seja possível manter o que já temos e comunicar a necessidade de que é preciso falar sobre direitos reprodutivos.”

Desde 1940, o Código Penal considera o aborto um crime no Brasil. A interrupção da gravidez é legal apenas em caso de estupro ou de risco à vida da gestante. Em 2012, uma decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) ampliou esse direito para casos em que o feto é anencéfalo.

Projeto de grupo de evangélicas visa sensibilizar e treinar pastores, para que sejam aptos a identificar e conduzir denúncias de violência sexual.

De família religiosa, a fundadora do CDD conta que ia à igreja desde pequena e que passou por todos os ritos tradicionais como batismo, primeira comunhão e crisma. Estudou em colégio de freira e quis se tornar uma.

“Eu fui freira durante muitos anos o que me permitiu ter experiências que me formaram como pessoa”, lembra. “Eu me tornei professora, e tive contato com comunidades muito pobres do País. Mas essa desigualdade gritante no País sempre me atingiu muito fortemente.”

Ao se aprofundar nos estudos das ciências sociais, chegou a fazer doutorado em Paris, na França e, aos poucos, se distanciou da vida religiosa. Ela explica, de forma subjetiva, que havia um impulso de autonomia e poder de decisão, algo que a vida religiosa, submetida a uma e strutura hierárquica, não permitia.

“A igreja católica, enquanto instituição, é misógina, hierárquica, dominada totalmente pelo poder masculino. Só homens decidem a vida das mulheres. Elas são reconhecidas como coadjuvantes e até glorificadas nesse lugar”, desabafa. “Mesmo o papa Francisco, que tem uma sensibilidade para questões sociais, ele é completamente partidário dessa moralidade condenatória.”

“A coisa mais forte [para deixar a vida de freira] foi a questão da possibilidade de tomar decisões sobre a minha vida. E eu acho que a vida de freira não permite isso e que a vida não deve ser assim. A gente deve ser responsável – a nossa vida é um dom muito grande e precioso. É complicado colocar isso na mão de um outro, um Deus.”

Desde 1990, o dia 29 de setembro, passou a ser considerado o dia Dia de Luta pela Descriminalização e Legalização do Aborto na América Latina e no Caribe. Naquela mesma época, de volta ao Brasil, Maria José e outras colegas religiosas, conheceram a médica uruguaia Cristina Grela, que hoje faz parte do Ministério da Saúde do Uruguai, único país da América Latina que descriminalizou o aborto até a 12ª semana. Decisão é de 2012.

“Quando voltei ao Brasil, não estava na minha agenda, no meu projeto, ser fundadora de nada. Eu queria mesmo era entrar no movimento político feminista, participar disso. Porque é aquilo: essa situação de injustiça no nosso País é gritante. E ela nos causa uma indignação que nos move à ação política.”

Há 25 anos, Grela era integrante do grupo norte-americano Catholics For Choice, que surgiu nos Estados Unidos em 1973, ano em o aborto foi legalizado no país após decisão da Suprema Corte no caso Roe v. Wade. Ela buscava mulheres interessadas em organizar o movimento na América Latina.

Maria José Rosado Nunes, Regina Soares Jurkewicz, Rosângela Talib e Luiza Tomita foram algumas das teólogas e católicas que, em 1993, criaram um braço independente do grupo no Brasil. Hoje, a organização está presente na África, na Europa e em pelo menos outros dez países latinoamericanos.

“Tudo isso foi me tornando mais feminista e me fez ser favorável a que as mulheres tenham a liberdade de decidir o que querem e o que não querem fazer com os seus corpos”, afirma Maria José. “E também com essa capacidade maravilhosa que nós temos de gerar um outro ser humano. Essa é uma potencialidade que a gente deveria poder decidir ou não realizar.”

Em uma de suas campanhas mais recentes, o CDD foi às ruas em novembro de 2017 para protestar contra a PEC 181, conhecida como “Cavalo de Troia”.

Na época a movimentação no Congresso foi vista como uma tentativa de criminalizar o aborto mesmo nos casos em que ele hoje é permitido, como em gestações resultantes de estupro. O grupo também esteve presente nos protestos que pediam “Ele Não”, em 2018, durante a corrida eleitoral.

Por não estar ligado à estrutura oficial da igreja católica, o movimento em si está fora dos limites da hierarquia e, por isso, não sofre repressões. Mas ataques e perseguições são frequentes. As ameaças chegam por email ou pelas redes sociais – e, em alguns casos, chegam a ganhar certa concretude.

“Uma das fundadoras foi intimidada em seu local de trabalho. Disseram a ela ‘ou o Católicas ou o seu emprego’. Ela escolheu o Católicas, na ocasião”, conta Maria José. “Eu e uma outra colega também fomos alvo de um inquérito que não deu em nada, porque não é contra a lei defender a descriminalização. Além de, em uma ocasião, um padre me seguir na saída de um evento. Se não fossem alguns colegas que estavam comigo, ele tinha me agredido.”

“A religião faz que essas mulheres se sintam mais culpadas”

Hoje há também iniciativas semelhantes às da ONG católica entre mulheres que frequentam igrejas evangélicas, pentecostais e neopentecostais. O grupo Evangélicas pela Igualdade de Gênero (EIG) é um deles. Em 2015, o coletivo foi montado com a intenção de acolher mulheres vítimas de violência doméstica.

“Quando essa mulher denuncia, ela sofre toda uma rede de culpabilização. Ela não é estimulada a fazer isso. O peso para que a família ‘dê certo’ é sempre nas costas das mulheres. Ela é agredida, procura ajuda, e ainda se sente errada”, diz Simony dos Anjos, cientista social e mestre em educação, membro do EIG.

Cinco anos depois, o coletivo está presente em 10 estados e conta com grupos diversos de mulheres evangélicas em sua coordenação. O coletivo realiza trabalhos educativos e de articulação política, assim como o CDD e tem núcleos diferentes de atuaçã

Assim como Maria José, Simony cresceu em uma família religiosa e conservadora, e, com o tempo, mudou o seu olhar sobre a própria f

Hoje ela é responsável por ações ligadas aos direitos reprodutivos no coletivo e afirma que a limitação de acesso aos direitos reprodutivos é uma forma de violência contra a mulhe

“A gente tem todo um aspecto social que influencia no que essas mulheres optem por essa solução. E é uma opção de desespero. Ninguém é favorável ao aborto. É uma situação de sofrimento mental e físico, de desespero. A religião faz apenas com que essas mulheres se sintam mais culpadas”, diz Dos Anjo

A cientista social conta que, atualmente, um dos projetos em curso durante a pandemia visa sensibilizar e treinar pastores, para que sejam aptos a identificar e conduzir denúncias de violência sexual – e que eventualmente resultam em uma gestação. “Eles não sabem nem como agir. Mesmo um pastor que tenha boa vontade, ele não tem repertório para isso.

O início da vida sempre foi um ponto de divergência dentro da fé cristã e é usada como argumento por grupos contrários à descriminalização. “Essa é uma interpretação cristã e que tem esse desejo de controlar corpos. E esse é um debate super cansativo, e faz com que os reais problemas de interrupção da gestação não seja discutido. Essa é uma armadilha dos fundamentalistas

O aborto sempre foi visto como um ‘pecado’ pela igreja?

A Pesquisa Nacional de Aborto (PNA), realizada em 2016, mostrou que no Brasil, 1 em cada 5 brasileiras aos 39 anos de idade já realizou um aborto

Além do argumento sobre Maria ter sido consultada sobre sua vontade de ser ou não mãe de Jesus, grupos religiosos como o CDD utilizam também o argumento do princípio do “recurso à consciência” para defender suas bandeiras.

A ideia, que parte de São Tomás de Aquino, pede que cada católico tome decisões guiadas apenas pelo pensamento individual, sempre avaliando quais são os efeito de suas ações sobre si mesmo e sobre o próximo, e que elas respeitem o arbítrio do outro.

“Quando elas abortam, elas fazem isso depois de pensarem muito. E tomaram a sua decisão na sua consciência. Ou não é o momento, ou porque elas não querem, ou porque não podem e são pobres e não tem. O que é uma atitude profundamente cristã.

A Pesquisa Nacional de Aborto (PNA), realizada em 2016, mostrou que no Brasil, 1 em cada 5 brasileiras aos 39 anos de idade já realizou um aborto. Em 2015, foram, aproximadamente, 416 mil mulheres, aponta o levantamento. Como o estudo foi realizado apenas na área urbana, a estimativa é de 503 mil abortos.

Destas mulheres, 67% têm filhos, 88% declaram ter religião e as maiores taxas estão entre negras e indígenas, de menor instrução, do Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Das que afirmaram ter alguma religião, 56% disseram ser católicas, 25% evangélicas ou protestantes e 7% professam outras religiões.

Segundo o Censo realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em 2010, 86,8% da população brasileira se declara como cristã. 64,6%, católicos e 22,2% de evangélicos.

Há uma maior frequência entre mulheres de menor escolaridade. O índice é de 22% para aquelas com até quarta série/quinto ano e de 11% para quem tem nível superior. Quanto à renda, o percentual é de 16% entre as brasileiras com renda familiar de até 1 salário mínimo e cai para 8% nas famílias com mais de 5 salários mínimo

Os dados sobre a interrupção da gravidez no País são do Ministério da Saúde, calculados a partir de informações coletadas no atendimento no SUS (Sistema Único de Saúde) e ajustadas por critérios estatísticos. Os números, contudo, mostram apenas os procedimentos legais.

Porém, como a interrupção da gravidez é criminalizada no Brasil, apenas parte das informações é oficial, e a carência de dados ainda contribui para que haja controvérsia na estimativa do número de abortos realizados no País.

“Elas tomam as decisões sobre as suas vidas. Mas é uma decisão carregada de culpa religiosa. E, de fato, é isso: nem a criminalização e o fato de se colocar o aborto como pecado diminui o número de abortos realizados”, diz Maria José. “O que o Católicas trabalha, é exatamente em mostrar que uma mulher pode tomar a decisão pela interrupção de uma gravidez recorrendo à sua fé, e não apesar de sua fé.”

Segundo a especialista, a manutenção de poder é a principal razão pela qual a interrupção da gravidez é condenada.

“Uma cidadania se realiza plenamente quando você é capaz de dizer o que quer ou não fazer com a sua vida, com o seu corpo, para ser livre autônomo. O aborto sempre foi considerado um pecado. Mas não pela defesa da vida, mas sim pela defesa da moralidade cristã da união, do pecado de adultério.”

É o adultério, citado pela professora da PUC, que é atrelado ao aborto em textos bíblicos. Em Números 5:11-34, é narrado um  ritual de aborto praticado por um sacerdote da própria igreja, mas que não diz sobre a escolha da mulher.

Neste trecho, é relatado que, se o marido ficasse com ciúmes de sua esposa e não pudesse comprovar a infidelidade dela por meio de testemunhas, poderia praticar o ritual de “ordália”, ritual que tinha como função comprovar  inocência ou culpa do acusado. Neste caso, o ritual consistia em obrigar uma mulher a tomar ”águas amargas”

A bebida citada no versículo atualmente é conhecida como “cadaverina”, elemento produzido durante a putrefação de matéria orgânica de corpos em decomposição. Segundo o texto, se a mulher abortava após de ingeri-la, estava comprovado que ela tinha sido infiel e o marido podia puni-la, inclusive com a morte por apedrejamento.

Já em Êxodo 21:22-23, fica determinado que, se uma mulher, por estar envolvida em uma briga entre o seu marido e outro homem, for ferida e abortar, o agressor deve pagar uma indenização para o marido. Estes dois trechos são os únicos em que a palavra “aborto” é mencionada no Antigo Testamento.

Artigo feito por: Huffpost

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https://mail.escoladelucifer.com.br/as-feministas-da-atracao-sexual-traicao/

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Dri

Afirmo à sabedoria da minha essência divina sobre todas as tiranias das circunstâncias humanas.🕯 Gratidão Mestre Bob Navarro🙏🍎 Luz p'ra nós

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29/09/2020 8:35 am

Luz p’ra nós

Silvia Cristina Rodrigues
29/09/2020 10:51 am

Essa questão do aborto, não entra em minha cabeça… A não ser questão de estupro de vuneráveis entre outros! Não está preparada para gerar e ter em outras situações…Não transe, use contraceptivo, use preservativo! Seja responsável…Deixa Deus fora disso né! É minha opinião, as vezes rigída, mais imutável! Luz p’ra nós! Parabéns pelo post 🌸

MariaFe
Reply to  Silvia Cristina Rodrigues
29/09/2020 6:26 pm

É um assunto delicado, pois são muitas as variáveis, mas compartilho da mesma opinião.Gratidão irmãs! Luz p’ra nós!

Leonardo Moreira
29/09/2020 12:03 pm

Luz P’ra Nós!

Shirley 666
29/09/2020 4:14 pm

O video do mestre falando sobre aborto é o mais coerente que ja ouvi.
Que bom que encontrei a direção de lucifer.
Luz p´ra nós!

29/09/2020 4:57 pm

Luz p’ra nós 🍎

Bruna Sollara
29/09/2020 5:47 pm

Ótimo post
Luz p’ra nós!

Juan
Editor
29/09/2020 6:00 pm

tem casos em q isso acaba se tornando aceitavel, como foi da menina mt nova q ficou famoso ha um tempo atras.. no caso parece q alguns religiosos condenaram mais ela do q o estuprador

MariaFe
29/09/2020 6:26 pm

Muito bom o post e o vídeo do Mestre Bob posicionando esse assunto! Gratidão!
Luz p’ra nós!

Gutemberg Lima dos Santos
07/10/2020 1:30 pm

Luz p’ra nós

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